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São Petersburgo - O melhor segredo russo
Você desembarca do avião e encontra os homens da Terra de Marlboro, fumando naquela mesma parede onde há menos de vinte anos estava o retrato de Lenin. Ao sair do aeroporto, dá de cara com uma fábrica da Coca-Cola, que, apesar da cor, nada tem a ver com o Exército Vermelho. Ao entrar na cidade russa, observa anúncios publicitários no topo das fachadas dos prédios, antes guarnecidas por slogans comunistas. Então, você se pergunta: "O que é isso, camarada?" Isso é a São Petersburgo de hoje, que se prepara para celebrar o tricentenário, em 2003, e que ao longo desses três séculos de existência já viu rolar muita água sob suas 450 pontes. Besteira compará-la a Veneza ou a Amsterdã, por causa desse detalhe. Petersburgo está na categoria das cidades singulares, personalíssimas, essenciais; aquelas com cenários que parecem pairar acima das circunstâncias do momento; e cujas ruas nos ensinam como tudo é instável e fugaz, em se tratando de assuntos humanos. Poucas cidades no mundo terão mudado tanto (inclusive de nome) em tão pouco tempo. Se você caminhar pelo eixo central de Petersburgo, a Avenida Nevsky, talvez depare com um pequeno aviso pintado na parede no tempo da Segunda Guerra, quase afogado entre letreiros de lojas de grife e outdoors da Samsung ou do Nescafé. As letras brancas, em fundo azul, dizem mais ou menos o seguinte: "Cidadãos! Em caso de bombardeio aéreo, este lado da rua é o mais seguro". Isso está ali, com uma flor embaixo, porque São Petersburgo sabe muito bem que a vida sempre alterna sonhos e adversidades.
Na Segunda Guerra, perdeu mais de 1 milhão de habitantes durante o cerco de 872 dias imposto pelo Exército alemão. As pessoas foram obrigadas a fazer sopa com pedaços de móveis e a comer animais domésticos. A lembrança desse período de horror está na bela, porém lancinante, sétima sinfonia de Dmitri Shostakovich, intitulada Leningrado, como São Peterburgo se chamava no período soviético, em homenagem a Lenin. Ela é, em forma sonora, como o quadro Guernica, de Picasso: o tributo ao suplício de uma cidade. Os alemães não conseguiram tomá-la. Petersburgo resistiu de forma heróica a Hitler, frustrando sua anunciada intenção de comemorar a vitória com champanhe no Hotel Astoria. Havia uma razão geopolítica para os alemães ansiarem por dominar Petersburgo. Situada no delta do Rio Neva, que deságua no Golfo da Finlândia, a cidade sempre foi vista como um baluarte importante para qualquer potência interessada em impor sua supremacia no Mar Báltico. No passado, os suecos já haviam conseguido ocupá-la por certo tempo. Porém Hitler queria algo mais - no plano simbólico. O champanhe que ele não tomou, no Astoria, seria para comemorar a captura do berço do bolchevismo, algo que na época haveria de ter impacto mundial. |